Startup brasileira entra no mercado para evitar o desperdício de alimentos – Rio Criativo

Startup brasileira entra no mercado para evitar o desperdício de alimentos

 Connecting Food conecta mercados que desperdiçam alimentos a ONG’s que precisam recebê-los.

Segundo a ONU, a cada três quilos de comida produzidos no mundo, um é jogado fora. Da plantação ao prato há desperdício em todos os processos.  E, consequentemente, o desperdício de alimentos traz sérios impactos sociais, econômicos e ambientais ao planeta.

O Brasil não tem sequer números oficiais sobre o tema. Mas basta ir a um restaurante após o horário do almoço, passar por uma feira livre após as 13h ou sentar-se à mesa com alguém que deixa comida no prato para ver que o desperdício de alimentos é também uma realidade no Brasil. E é justamente esse cenário que a Connecting Food, uma startup brasileira criada pela engenheira de alimentos Alcione Silva, pretende reverter.

Alcione explicou que, basicamente, a Connecting Food vai até mercados que normalmente desperdiçariam o alimento e os conecta com ONGs dispostas a receber os insumos e distribuir para pessoas em situação de vulnerabilidade.  Além de conectá-las, a empresa oferece suporte tecnológico para gerenciar a logística do processo – o que costuma ser um dos grandes desafios quando o assunto é doação de alimentos.

A startup, que foi lançada em 2017, se desenvolveu em um programa chamado Social Good Lab, em 2016. Trata-se de um laboratório de inovação social em Florianópolis que, todos os anos, reúne as ideias com maior potencial de impacto. Em 2016, a Connecting Food conquistou a medalha de prata.

Reduzindo o desperdício de alimentos no Brasil

“Oficialmente não há nenhuma lei que proíba a doação de alimentos”, garante Alcione Silva. Ainda assim, reticentes pelo fato de a legislação não ser específica em relação ao tema, muitos estabelecimentos temem doar o alimento e se responsabilizar por algum possível dolo. O Código Civil brasileiro responsabiliza qualquer estabelecimento comercial por qualquer dano ocasionado ao seu cliente pelo produto que está sendo oferecido. Ele é genérico e não fala de alimentos”, comenta Alcione. Mas ela garante nunca ter encontrado algum precedente jurídico de uma empresa que doou alimentos e foi processada por isso. “Esse é um grande paradigma. Não existe estímulo para a doação”, comenta.

Engenheira de alimentos com 15 anos na cadeia de distribuição, Alcione resolveu procurar como poderia causar mais impacto social utilizando sua experiência. Foi quando encontrou a oportunidade de promover a doação de alimentos. “Quando estava dentro da indústria, não tinha tanto esse olhar”, confessa. Passou a perceber o tamanho da questão quando passou a estudar o tema. Não queria acabar com a fome do mundo, só fui ver como eu podia fazer para desperdiçarmos menos alimentos. Consequentemente, vi o impacto. Quando você une seu talento para resolver um problema do mundo você encontra seu proposito.

A Connecting Food, que por enquanto opera só em São Paulo, vai até mercados, negocia com eles, recolhe os alimentos (principalmente legumes, verduras e frutas), que seriam desperdiçados e, utilizando tecnologia própria, gerencia a logística para que aquela comida chegue até a uma ONG que a distribuirá. As organizações, por sua vez, pagam pelo serviço. Segundo Alcione, a empresa, em menos de seis meses, já trabalha com 5 ONGs, incluindo a Prato Cheio, que distribui a outras 60.

O maior desafio, segundo ela, ainda é logístico. “O transporte de alimentos exige cuidado, não pode ser feito em qualquer veículo, precisa cumprir uma série de normas”, comenta.  Há ainda outra barreira: a falta de comunicação entre ONGs e mercados. Para isso, é necessário ir presencialmente aos ambientes e negociar.

Apesar dos desafios, Alcione garante que o trabalho tem trazido muito aprendizado. “Os principais são pessoais. Sair da estrutura de uma empresa, com tudo organizado, processos criados e começar do zero é difícil. E também é um desafio fazer um negócio de impacto social, com sustentabilidade social, financeira e cultural. Por fim, ainda é preciso entender de tudo um pouco quando você empreende. Mas, o aprendizado é muito mais amplo”, comenta.

Sem atingir a esperada sustentabilidade financeira, Alcione garante que a Connecting Food ainda está testando os modelos de negócios e, embora já tenha sido procurada por investidores, prefere amadurecer melhor a empresa antes de aceitar aportes. Por enquanto, tudo é feito com recursos próprios.

Além de CEO da Connecting Food, Alcione é do comitê executivo de uma rede chamada Save Food, uma organização global para a redução do desperdício e alimentos, ligada à ONU. Eles planejam dois eventos esse ano e estão criando um comitê para avançar políticas públicas.

Segundo ela, existem diversos projetos de lei relacionados ao desperdício de alimentos. “São aproximadamente 14 tramitando entre Câmara e Senado. São muito importantes para estimular as doações. Mas, infelizmente, a agenda política no momento tem outras prioridades”, lamenta. “Ainda assim, estamos fazendo esforços para que ganhe espaço maior na agenda. O tema não está parado, existe articulação e movimento em torno dele”, diz.

O desperdício de alimentos no mundo

De acordo com a World Food Programme, braço da ONU contra a fome, o número de pessoas em situação de insegurança alimentar grave está aumentando rapidamente. Se em 2015 eram 80 milhões, em 2016 o número foi para 108 milhões – crescimento de 35%. Se considerarmos todas as pessoas que, em enfrentam a fome algum nível, o número é ainda maior, chegando a 795 milhões – 12,9% da população. A má nutrição é a principal causa de morte infantil. Todos os anos perdemos 3,1 milhões de crianças por conta da falta de alimentação. Uma a cada quatro enfrenta crescimento limitado por má nutrição.

A Ásia concentra dois terços da população faminta do planeta. E, segundo a ONU, o índice de pessoas em situação de insegurança alimentar crescer até 2 bilhões em 2050.  O futuro é sombrio. A World Ressources Institute (WRI) estima que há uma diferença de 70% entre a quantidade de comida produzida hoje e a que precisará ser produzida em 2050, quando a população deverá chegar a mais de 9 bilhões de pessoas. Evitar o desperdício de alimentos é essencial para conseguirmos diminuir essa discrepância até lá.