‘Intraempreendedorismo’ nas empresas - por Guilherme Velho – Rio Criativo

‘Intraempreendedorismo’ nas empresas – por Guilherme Velho

* Este artigo foi escrito originalmente para o Medium do Templo

Lá por volta de 1977, nascia o “movimento punk”. Jovens montavam suas bandas para questionar o status quo. Gritos de anarquia, descrença nas velhas instituições e niilismo ecoavam nos shows, rádios e vitrolas do mundo inteiro. Era uma nova expressão da contracultura. Para dizer ao mundo o que pensava, de uma forma autoral e sincera, você montava uma banda com amigos, dava um nome bacana para ela e escrevia músicas cheias de significado para outros jovens descrentes como você.

Por isso, há quem diga que o empreendedorismo é o “novo punk”. Insatisfeito com o mundo como ele é, o jovem de hoje também se põe a questionar. Relações profissionais formais, empresas sem propósito e morosidade são fatores que agridem e repelem a tal inquieta Geração Y. E o que você faz? Monta uma empresa com amigos, dá um nome bacana para ela e elabora ideias cheias de significado para outros jovens descrentes como você. Ou seja, ainda há uma chama de contracultura no nascimento de muitas das startups.

Mas não se trata só de rebeldia ou inconformismo. Empreender pode ser uma questão estratégica também. Ainda lembro de uma fala do Padre Jesus Hortal Sànchez, ex-reitor da PUC-Rio, em 2003, quando ele dizia que aquela deveria ser uma universidade para formar bons empresários e não somente bons empregados. Eu era aluno de Administração e empresário júnior. Fui à loucura, assoviei e aplaudi o reitor.

Claro, um dono de empresa gera empregos, receitas e desenvolvimento. Deveria ser considerado um herói por nossa sociedade. E realmente houve uma melhora significativa do entendimento do empreendedorismo e de sua relevância. Há 15 anos, lembro que meus colegas de universidade não sabiam o que significava a tal palavra. Tampouco minha família ou amigos. Ainda era um conceito desconhecido. Em 2017, o conceito de empreendedorismo é amplamente conhecido e defendido no país.

Ouso dizer que está tão em voga que já virou modismo. Quase todo jovem pensa em abrir um negócio inovador. Antes eram websites e eventos. Depois vieram as “camiseterias”. Na sequência, marcas de moda, projetos gastronômicos diversos e foodtrucks. São tantos foodtrucks que já dá pra fazer um engarrafamento na Via Lagos.

Não estou fazendo um juízo de valor. Não estou dizendo que esse fenômeno é ruim. Até porque não é possível comparar se é melhor ter um negócio ou ter um emprego. São mundos bem diferentes. Lembro de uma charge em que dois passarinhos conversam. Um preso na gaiola e outro do lado de fora. O engaiolado ficava encantado com toda a liberdade de seu colega. Já o que voava ficava com muita inveja do colega que recebia alpiste fresco todos os dias. Toda a história tem dois lados.

Mas é fato que, de um modo geral, a percepção da Geração Y mudou quanto a isso. Não é somente a valorização supracitada pelo caminho das startups. É também uma desvalorização completa da vida corporativa. Há alguns anos, comemorávamos o fato de Beltrano ter conseguindo um emprego em uma firma internacional. Hoje em dia, Sicrano é visto como um pobre de um coitado por estar há mais de oito anos em uma mesma empresa. Sinais dos tempos.

E hoje gostaria de falar com os Sicranos. Pois eles também podem e devem ser empreendedores. Podem e devem criar coisas incríveis. Empregos não deveriam ser empecilhos. Muito pelo contrário.

Tomo a liberdade de citar o professor J.C. Dornelas que tão bem compilou as características mais comuns das pessoas de personalidade empreendedora.

. Visionárias; Sabem explorar ao máximo as oportunidades; Sabem tomar decisões;

. Otimistas e apaixonadas pelo o que fazem; Determinadas e dinâmicas; Dedicadas;

. Independentes; Organizadas; Bem relacionadas (networking);

. Possuem conhecimento; Assumem riscos calculados;

. Líderes e formadoras de equipes (ainda mais na Era da Colaboração e Inovação Aberta);

. Criam valor para a sociedade (família, comunidade, empresa etc.);

. Fazem a diferença.

O empreendedorismo não tem a ver somente com a criação de novas empresas (startups). Tem relação com potencial de gerar inovação, valor e crescimento. Assim sendo, precisamos passar pela diferenciação entre “empresários” e “executivos”. Pois o empresário é o dono de empresa, aquele que monta uma startup e a desenvolve, tendo as habilidades necessárias para a condução da mesma. Já o executivo é aquele que é contratado como colaborador, que executa estratégias e processos. Contudo, para desenvolver novos projetos, ambos:

. Reconhecem, avaliam e exploram oportunidades;

. Precisam de um conceito único, com diferencial;

. Visão x Habilidades gerenciais, Paixão x Pragmatismo, Proatividade x Paciência;

. Obstáculos aparecem, perseverança e criatividade serão demandadas;

. Gerenciam riscos;

. Usam criatividade para identificação e busca de recursos;

. Devem pensar na “estratégia de colheita” (o que e como invisto para ter quanto e quando de retorno).

Assim sendo, ambos podem ser empreendedores. Um funcionário pode ter um forte perfil empreendedor, propondo novos projetos, novos processos e soluções. Essa é aquela pessoa que chamamos de “Intraempreendedora”, pois realiza e faz a diferença dentro de uma companhia.

Acredito que quem melhor definiu essa postura intraempreendedora foi S. Loginsky. Em seu livro “Implementando empreendedorismo na sua empresa”, ele explica:

“O termo surgiu para definir o tipo ideal de funcionário ou gestor que as empresas do século XXI precisam. Alguém que age em sua função, ou em sua área de atuação, mas com uma cabeça de empresário.

A partir das metas arrojadas que sua empresa com certeza define para crescer e aumentar a sua lucratividade, o intraempreendedor analisa e avalia o que pode desenvolver  ou mudar  nas atividades sob sua supervisão, coordenação ou execução, contribuindo significativamente para o atingimento dos resultados esperados.

Mais do que isso, esse profissional está sempre buscando novas melhorias, antecipando-se mesmo às necessidades da empresa.

“Intraempreendedor: uma pessoa que considera o seu espaço na organização como o seu negócio e estuda seriamente as formas de melhorar o que faz, bem como contribuir para o sucesso da organização.”

Ou seja, vemos que a postura intraempreendedora é cada vez mais desejada ou até exigida. Dentro do ecossistema de micro e pequenas empresas, isso fica claríssimo, uma vez que uma nova organização requer profissionais multidisciplinares, habilidosos e dispostos a começar coisas do zero. Já nas grandes empresas que visitamos no país ou exterior, independentemente do segmento de atuação, o mesmo tem acontecido. Alguns fenômenos que percebemos:

. Composição de equipes ou departamentos de inovação;

. Programas de bonificação para ideias inovadoras;

. Times de trabalho autodirigidos;

. Capacitação dos colaboradores em ferramentas de modelagem de negócios e design thinking;

. Desenvolvimento de incubadoras de projetos dentro das empresas;

. Parcerias com aceleradoras de negócios;

. Programas de estímulo de spin-offs;

. Iniciativas de capital de risco.

Explicar cada um desses tópicos ficará para um próximo post, pois esse já ficou um pouco longo.

Podemos finalizar com alguns exemplos de Intraempreendedorismo em consultorias aqui do TEMPLO:

Com o intuito de entender as principais inovações no mercado e poder acompanhar o avanço de novas tecnologias, a DYNAMO empreende com o TEMPLO um projeto de educação interno com seus membros para que a organização possa identificar e entender as ameaças e oportunidades que novas tecnologias e modelos de negócio provêm ao seu portfólio.

A Mongeral Aegon procurava uma forma de estimular atitudes empreendedoras de seus colaboradores, essa busca levou ao desenvolvimento do MAG LAB, uma spin-off da empresa com o TEMPLO, que desenvolve startups de tecnologia com a participação dos funcionários da seguradora. O MAG LAB fica no TEMPLO Botafogo e incuba uma startup fintech com mentorias do TEMPLO e da comunidade.]

Fato é que cenários em mudança exigem encontrar soluções novas e isso é uma das especialidades dos intraempreendedores. Precisamos muito deles, cada vez mais.

Guilherme Velho _ guilherme@tbdlab.com

Sócio Cofundador

TBD Lab _ The Business & Design Lab _ http://www.tbdlab.com/