De diretor audiovisual a empreendedor: quando se reinventar é preciso. – Rio Criativo

De diretor audiovisual a empreendedor: quando se reinventar é preciso.

Massaria, um bistrô artesanal onde tudo é saudável, biodegradável e sustentável

*Essa matéria foi originalmente publicada pelo Projeto Draft

Quando bateu a crise dos 50 anos no então diretor audiovisual Marcelo Machado, a preocupação não estava na idade em si, nem na barba branca ou tampouco na careca assumida há um bom tempo. Junto com o meio século de vida, vinham 20 anos na mesma profissão e uma paciência cada vez menor em lidar com clientes, cada vez mais novos e menos experientes. A sensação de que estava se tornando “antigo” no trabalho passou a incomodá-lo até ele perceber que poderia ser “novo” de novo.

Empreendendo em uma nova carreira. Em vez de simplesmente reproduzir um modelo existente, escolheu colocar na receita da Massaria o compromisso com conceitos caros para ele: sustentabilidade, comida saudável e orgânica. Inaugurada em março na capital paulista, a casa vende massas em versões artesanais orgânicas e com baixo teor de glúten. Além disso, são servidas em bowls feitos de bagaço de cana e com talheres feitos de amido de milho.

Esta não foi, porém, a primeira tentativa dele de empreender. O primeiro insight de Marcelo aconteceu lá pelos 47 anos, quando ele pensou em produzir sanduíches para serem distribuídos ao final das provas de corrida de rua. Como tinha o hábito de correr (chegou a disputar maratonas) e a preocupação com a alimentação saudável, criou a receita de um sanduíche balanceado, buscou parceiros e chegou a fornecer o produto na Maratona de São Paulo. Tirou foto com os vencedores da prova e tudo, mas o negócio não foi adiante. Seguiu na produtora.

A vontade de ter o próprio negócio, no entanto, não saía de sua cabeça. Passou, então, a observar os food trucks: que tipo de comida serviam, qual o modelo de negócios etc. Conversou com pessoas do mercado e teve a ideia de uma “food bike”. O conceito continuava na linha da alimentação saudável, mas agora buscava também tornar-se sustentável. Como havia feito um curso de massas e gostava de cozinhar em casa, pensou em levar o método prático do Spoleto (rede de fast-food de massas) para as ruas, mas com outra pegada. Suas massas seriam integrais e ele trabalharia apenas com produtos orgânicos.

SONHAR NÃO CUSTA NADA

“Queria que a bike gerasse sua própria energia. Fui atrás de um painel solar para colocar no toldo. Também tinha a preocupação com o lixo produzido e, então, descobri um bowl que é feito com bagaço de cana e talheres de amido de milho, totalmente biodegradáveis”, conta. Marcelo pretendia pedalar pela ciclovia da Avenida Faria Lima, em São Paulo, parando a cada dia em um local diferente para comercializar as massas artesanais. O problema é que, após consultar a subprefeitura de Pinheiros, descobriu que não havia uma legislação para food bike. E que só poderia fazer o mesmo que os food trucks: estacionar em locais privados com autorização dos proprietários.

Notou que encontraria diversos trâmites burocráticos e recebeu outra dose de desencorajamento de um amigo, que resumiu: “trabalhar com comida de rua é complicado: choveu, acabou”. Outro conhecido aconselhou colocar o dinheiro em uma franquia e foi então que caiu a ficha. Ele conta:  “Peraí. Se eu posso investir em uma franquia, também posso abrir meu próprio negócio”.  Passou a falar da nova ideia na produtora em que trabalhava, no bairro de Moema, em São Paulo. A colega de ofício Lola Santos se encantou pelo projeto e decidiu entrar na sociedade. Os dois partiram, então, em busca de um local na região que trabalhavam. Juntaram as economias, Marcelo também fez um empréstimo no banco e conseguiram 65 mil reais para tirar o negócio do papel. O conceito primordial é que ele fosse o mais sustentável possível.

Boa parte dos detalhes que tornam a experiência de comer na Massaria algo único já estavam no que Marcelo havia idealizado para a food bike. Os bowls de bagaço de cana, os talheres de amido de milho. Mas agora havia um balcão e toda a estrutura física da casa. Então mãos à obra: as mesas e cadeiras foram feitas de madeiras de demolição, assim como as estruturas para guardar os vinhos penduradas na parede. A água do ar condicionado foi direcionada para um tambor, para que possa ser reutilizada para a limpeza. As luminárias de um dos lados do estabelecimento são conectadas a placas de energia solar.

O espaço é pequeno e a produção da massa é terceirizada, mas segue uma receita de Marcelo. Para manter-se alinhado ao conceito de alimentação saudável, ele optou por utilizar na massa 80% de farinha de arroz (cereal que não tem glúten) e 20% de farinha de trigo. No cardápio há três opções: espaguete de quinoa, talharim integral e pene de linhaça escura. Os cinco tipos de molhos são preparados em casa por Marcelo, usando ingredientes orgânicos. Há o molho de gorgonzola com pêra, o molho pomodoro e três opções de pesto (abobrinha, pimentão amarelo e o tradicional de manjericão). Todos os pratos custam 30 reais. As entradas (mini bruschetta e nhoque salteado na manteiga) saem 21 e 19 reais, respectivamente. De sobremesa, mini bolo de cacau (ou banana) orgânico com calda de morangos, por 6 reais. O café, também orgânico, sai 3,50. Sobre o cardápio, o empreendedor conta uma história curiosa:

“Somos vegetarianos por acidente. Na primeira semana fiz bolonhesa e não funcionou. Além disso, carne é algo muito perecível, não existe orgânica e é dificílimo saber a procedência. Melhor ficar sem.

Acabou que a Massaria virou vegetariana sem nenhuma bandeira. Tudo ali é tão simples quanto possível: o cliente faz o pedido no balcão, retira os bowls também no balcão e depois descarta tudo na compostagem. Não há garçons. Aliás, Marcelo e Lola são os únicos funcionários da casa, que tem capacidade para até 20 lugares. Hoje, faturam em média 12 mil reais por mês. “É bom para o início, mas ainda está bastante abaixo do que podemos produzir”, afirma ele.

QUANDO AS PARCERIAS DIZEM TUDO SOBRE VOCÊ

Ele acredita que uma das formas de aumentar as vendas e encontrar o público que se identifique com o conceito do negócio é buscando parcerias estratégicas, com empreendedores e iniciativas que tenham conceitos parecidos: está para fechar um acordo com a E-moving, empresa especializada no aluguel de bicicletas elétricas. A Massaria oferecerá descontos para quem aparecer em uma dessas bikes.